Também nós podemos ver a neve …

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O isolamento, as dificuldades, a resistência e o acolhimento de uma militante do Québec

Quando eu ia a Rouyn-Noranda, a Celina recebia-me muitas vezes em casa dela. Não é que fosse uma grande casa ou que tivesse um quarto de hóspedes, mas encontrei aí muitas pessoas que não teria nunca encontrado noutro lado. E, depois, a Celina gosta de receber pessoas em casa.

São oito horas quando chego depois de uma noite passada na camioneta, no ônibus. Oito horas é cedo para desembarcar em casa de alguém. Vou esperar uma hora no quentinho, num fast-food da rua principal. Às vezes encontro pessoas conhecidas que podem estar aqui sem serem obrigadas a fazer despesa.

Nove horas. Corro para casa da Celina. Subo depressa a escada de madeira na rua estreita. O apartamento ocupa um quarto da casa, dois quartos em cima e, em baixo, a cozinha onde ela me espera. Estamos contentes por nos reencontrarmos. Há já dois meses, três meses mesmo, que não nos víamos.

Na minha primeira visita, fiquei três dias em sua casa. Tempo suficiente para conhecer os seus amigos, os seus vizinhos e todos os que passavam.

A Celina não tem telefone. Para a contactar é preciso escrever-lhe ou telefonar para a vizinha, Natalie. Celina fica muitas vezes com os filhos dela. Dela e dos outros. Às vezes, crianças muito pequeninas. E, às vezes, por muito tempo.
Há sempre alguém em casa. Quando a Celina tem que sair, fica a Lena. Ela ocupa um dos dois quartos do apartamento. Lena não fala muito, mas participa em tudo.

A Celina repete frequentemente:
“ Eu não faço perguntas. Não faço distinções. Não me preocupo com os seus costumes , não me preocupo com as suas vidas. Preocupo-me com uma coisa: se estão tristes ou infelizes, procuro compreender porquê.”
Muitas vezes falámos entre nós as duas sobre o facto de ela nunca dizer não. Por que é que ela não poderia dizer não às pessoas quando ela tem os seus próprios projetos, coisas que quer fazer para ela. Responde-me que não é capaz de fechar a porta, de recusar as pessoas.
“Se as pessoas me procuram é porque precisam.”
Já a vi dar tudo o que tinha, esvaziar os armários e ficar sem nada. Amanhã é outro dia…

O tormento da Celina é a vida da filha mais velha.
“Foi atrás de um tipo em vez de ficar com os filhos.”
Agora, a filha não vive com ninguém, nem mesmo com os filhos. Celina _ não compreende e diz: “Fez a vida às avessas.”
Às vezes, a filha vem lavar a roupa a sua casa. Enquanto a máquina gira, jogam às cartas para evitar discussões.
Celina fala pouco dos netos. No entanto, estão bem visíveis na fotografia sobre a estante. Gostaria muito de se ocupar deles, de os ter em sua casa.
A justiça decidiu de modo diferente. A mãe está proibida de ver os filhos. Portanto, a avó está proibida de ter os netos em casa porque a mãe pode aparecer a qualquer momento. São estranhos que tratam das crianças, destes três meninos de quem nem sequer sei os nomes.

A segunda filha é o seu orgulho. Estudou na área do Serviço Social. Tem dois filhos. Mas estes não substituem os outros. Sentirá sempre a sua falta.

Quando a família se reúne no Natal, lá estão todos menos eles. A bisavó, mãe da Celina, também aparece. Quatro gerações sob o mesmo teto. Celina mostrou-me as fotos. As mesmas fotos que tinha levado para uma reunião sobre o tema da família. Notei que ela disse nesse dia:
“Para mim, o importante nestas fotos, são as três crianças que faltam … Se não há amor, não há nada para manter o fiozinho, a ligação, não há nada. Quando uma pessoa se levanta pela manhã mesmo que não tenha pão, tem, pelo menos, amor. Temos um sorriso, um bom-dia. Temos alguma coisa, não ficamos sem nada. Mesmo se não temos nada, podemos ver a neve. Nós também vamos ver a neve no dia de Natal quando a família está junta.”

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Wherever men and women are condemned to live in extreme poverty, human rights are violated.
To come together to ensure that these rights be respected is our solemn duty.

Joseph Wresinski

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